4. BRASIL 14.8.13

1. A ALTA DO DLAR ASSUSTA BRASILEIROS
2. A CONEXO BRASLIA
3. AGENDMETRO DE DILMA
4. E ELES AINDA DIZEM QUE NO SABIAM DE NADA
5. EM ITAJUB, A NOVA VIDA DO SUPEREXECUTIVO

1. A ALTA DO DLAR ASSUSTA BRASILEIROS
Valorizao recorde da moeda americana dispara o preo de passagens areas e de pacotes tursticos para o Exterior, mas governo diz que cenrio no preocupa
Izabelle Torres e Josie Jeronimo

Durante muito tempo, os brasileiros que viajam ao Exterior ou compram produtos importados se acostumaram a fechar negcio com o dlar cotado em torno de R$ 2. Em 2013, essa realidade sofreu uma reviravolta. De janeiro a julho, o dlar disparou 12,5%  a inflao no perodo foi de 3,18%  e os efeitos dessa alta j so sentidos no preo das passagens areas, dos pacotes tursticos e de produtos eletrnicos. Em levantamento realizado a pedido da ISTO pelo site Mundi, de comparao de preos de passagens areas, a tarifa mdia do trecho So Paulo  Miami (Estados Unidos) saltou de R$ 3.626,38, em 5 de maio, para R$ 4.375,46 em 1 de agosto, quando os brasileiros j comeam a planejar as viagens de fim de ano. Qual ser o resultado disso? De acordo com o presidente da Federao Nacional de Turismo, Michel Tuma Ness, a manuteno do dlar acima de R$ 2,20 vai resultar em uma queda de 40% na venda de passagens internacionais e de pacotes para o Exterior nos prximos dois meses. Parte dos consumidores que tinham feito reservas para viagens internacionais no fim do ano tem cancelado os pacotes. Quem viajava com R$ 4 mil agora ter que desembolsar R$ 6 mil, calcula Ness.

CONFIANA - Para Mantega, o avano do dlar no vai afetar a economia do Pas

As quatro maiores operadoras de destinos tursticos do Brasil esto conseguindo manter suas vendas operando com o dlar congelado em R$ 1,99 e reduzindo suas margens de lucro. Foi assim que a CVC aumentou embarques para as ltimas frias de julho em cerca de 10% em relao ao mesmo perodo do ano passado. Todas as empresas do setor de turismo tiveram que se mexer para no sofrer perdas significativas. O presidente da Flytour Viagens, Michael Barkoczy, afirma que a empresa precisou aplicar novas estratgias para no perder clientes. Negociamos as tarifas de dlar e euro com os fornecedores para diminuir o impacto para os consumidores, afirma. Em julho, a empresa identificou uma queda de 5% na demanda internacional e a migrao desses consumidores para pacotes nacionais. Se a procura por roteiros fora do Brasil continuar em queda, novas estratgias tero que ser planejadas.

Apesar dos efeitos negativos da elevao do dlar, o governo diz que no est preocupado. Para o ministro da Fazenda, Guido Mantega,  preciso considerar uma srie de outros fatores. A valorizao da moeda americana gerou, de fato, resultado favorvel em um momento crtico para a balana comercial. Os exportadores brasileiros comemoram o respiro que o novo patamar do dlar deu s suas negociaes. No agronegcio, o avano do dlar pode aumentar suas receitas em at 10% at o final do ano. O mesmo se d em outros setores que tm nas vendas ao Exterior o grosso de suas receitas, como na indstria de alimentos e na minerao. O governo tambm argumenta que, ao contrrio do que aconteceu em outros momentos de forte valorizao da moeda americana, desta vez tudo indica que a alta excessiva no deve durar por muito mais tempo.

Para alguns especialistas, a tranquilidade do governo deve ser vista com alguma desconfiana. Se a elevao do dlar prosseguir em ritmo ascendente, a inflao, por ora sob controle, corre o risco de ultrapassar a meta estabelecida no incio do ano. No  uma situao desesperadora, mas deve ser vista com cautela, diz o economista lvaro Luchiezi. Na quinta-feira 8, o Banco Central promoveu um leilo de US$ 635 milhes para suavizar a alta do dlar e o mercado respondeu com cmbio 1,33% menor. Por enquanto, porm, as aes do governo no surtiram efeito no turismo. Continua caro demais viajar ao Exterior  e no h nada que indique que esse cenrio v mudar no curto prazo.


2. A CONEXO BRASLIA
Como o esquema de desvios de recursos do metr operou na capital federal. Delator da Siemens diz que os ex-governadores Joaquim Roriz e Jos Roberto Arruda receberam propina. A comisso de Roriz era de R$ 700 mil por ms, segundo a denncia
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

A mfia do trem, que operou sem constrangimentos nos governos tucanos de So Paulo durante as gestes Mrio Covas, Jos Serra e Geraldo Alckmin, desenvolveu tentculos em Braslia. Na ltima semana, ISTO teve acesso a novos trechos das denncias feitas por um ex-funcionrio do conglomerado alemo Siemens ao ombudsman da companhia em 2008 e ao Ministrio Pblico. Nelas, o denunciante revela que, na capital federal, o esquema para a manuteno do metr do Distrito Federal faturou ilegalmente com o consentimento de secretrios e polticos do alto escalo. Como em So Paulo, o esquema tambm era mantido  base de distribuio de propina. Entre os corrompidos, contou o ex-executivo da Siemens, estariam os ex-governadores Joaquim Roriz (PMDB) e Jos Roberto Arruda (ex-DEM). A lder do cartel era a Alstom, conglomerado francs que imps aos contratos um valor capaz de resultar num lucro de fazer inveja a qualquer ramo: margens lquidas acima dos 50%. Em contratos usuais, esse valor varia entre 10% e 15%. No  toa, dirigentes do mercado de transportes sobre trilhos se referiam ao projeto como a galinha dos ovos de ouro da Alstom.

Para a dinheirama trafegar livremente, as companhias responsveis pela manuteno do metr do Distrito Federal tiveram de pagar propinas de mais de 10% do valor lquido dos contratos a polticos e servidores. A comisso, assegurou o delator, foi repassada em 2001 ao ento governador Joaquim Roriz, ao seu chefe de gabinete, Valrio Neves, ao ex-presidente do metr de Braslia Paulo Victor Rezende e ao ex-diretor de operaes do metr Antnio Manoel Soares, a quem o denunciante chama de Baiano. Tambm integrava o propinoduto, segundo o ex-funcionrio da Siemens, o atual vice-governador de Braslia e, na poca, secretrio estadual de Infraestrutura, Tadeu Filippelli (PMDB). O ento governador Joaquim Roriz, segundo o relato do denunciante, era o maior beneficirio do propinoduto em Braslia. Independentemente do valor dos contratos, ele recebia das companhias uma mesada fixa de R$ 700 mil em troca do aval ao golpe. A comisso paga mensalmente ao governador Roriz era da ordem de R$ 700 mil, disse o ex-funcionrio da Siemens. 

 A engrenagem desse esquema responsvel por drenar os cofres pblicos do Distrito Federal comeou ainda no edital de concorrncia para a construo do metr de Braslia em 1991. O Consrcio Brasmetr, no qual a Inepar (IESA), a CMW (brao da multinacional francesa Alstom) e a TCBR tinham como funo desenvolver o projeto e fornecer os equipamentos eltricos, sagrou-se vencedor. Por opo do metr de Braslia, em 2001, essas empresas foram escolhidas sem licitao para realizar a manuteno de todos os seus sistemas. Nessas condies, puderam cobrar o preo que quiseram. O contrato foi simplesmente adjudicado  Alstom, que ento pde cobrar o preo que bem entendia, afirmou o depoente.

Os agentes pblicos agiram para burlar a lei ao serem forados a abrir um certame para o servio de manuteno do metr brasiliense. Engenheiros da empresa francesa Alstom, conta o denunciante, receberam carta branca para escrever o edital de licitao de forma a manter o contrato nas mos da companhia francesa e de suas parceiras. Com o conhecimento prvio e at com a participao de seus funcionrios no projeto que seria disputado, as empresas que operavam em conjunto com a Alstom tinham a certeza de que alcanariam o maior nmero de pontos na parte tcnica e manteriam o controle do contrato. A pontuao era baseada em atestados de experincia da equipe tcnica, cujas exigncias foram redigidas de tal forma que somente a equipe original (Alstom) poderia atend-las plenamente, detalhou o denunciante. Essa seria uma prtica comum para reduzir ainda mais as disputas de licitaes no setor de transporte sobre trilhos. Assim, eles conseguiam evitar uma vitria de algum de fora do cartel.

O depoimento do ex-funcionrio da Siemens mostra, no entanto, que nem a associao criminosa das empresas evitou que elas se desentendessem ao disputar os contratos superfaturados. De olho na licitao para a manuteno do metr de Braslia, a Siemens contratou a preo de ouro  1% do valor do contrato  os engenheiros Luiz Antonio Taulois da Costa e Ben-Hur Coutinho Viana de Souza, da rival Alstom. Somente esses dois engenheiros da Alstom que trabalhavam no projeto poderiam atender s exigncias do edital e, com isso, atingir a pontuao mxima, explicou o denunciante. A contratao dos dois estremeceu a relao entre as duas empresas. Por vrias vezes, os diretores da Alstom tentaram convencer a Siemens a no contratar os tcnicos. Sem xito e diante da derrota iminente, a empresa francesa resolveu ento recorrer a polticos brasilienses para que intermediassem um acordo. A Alstom resolveu apelar para o governador Roriz. Para o governador, no importava quem ganhasse a licitao, contanto que o pagamento de sua comisso continuasse a fluir, contou o denunciante. A presso governamental surtiu efeito e os grupos comandados por Alstom e Siemens se associaram para vencer a licitao e drenar o errio.

No acordo de bastidor firmado entre os consrcios liderados pela Alstom e pela Siemens, as duas partes acertaram que uma delas ofereceria a proposta de 94,5% e a outra, de 95% do teto estabelecido pelo governo do Distrito Federal. O valor, diz o denunciante, j estava inflado para manter a alta taxa de lucratividade do negcio. Ficou combinado que quem perdesse contrataria o segundo colocado para cerca de 40% do servio e a chance de oferecer o melhor preo se daria por meio de sorteio. De fato, isso ocorreu e a Alstom pode oferecer o melhor preo. Na hora de definir o certame, porm, a Siemens se valeu do conhecimento dos engenheiros recm-contratados e venceu a licitao, diferenciando-se no conhecimento tcnico do projeto. Coube  francesa, ento, a menor fatia do rentvel negcio. 

 Embora o certame tenha ocorrido ainda na gesto de Roriz, ele foi assinado no comeo do governo Jos Roberto Arruda e continuou a operar normalmente durante a sua administrao. O superfaturamento era de tal porte que Arruda pediu um desconto de 20% para que o contrato chamasse menos ateno. Isso, porm, alterou pouco as altas margens de lucro. Polticos continuaram, de acordo com o denunciante, a ser corrompidos, inclusive o governador Arruda. Segundo informaes de pessoas envolvidas no projeto, Siemens, Serveng e MGE pagaram comisso ao governador Jos Arruda e seu time, afirmou o delator. Por meio da assessoria, Roriz afirmou que desconhece as denncias e que no tem conhecimento de  nenhuma irregularidade cometida em seu governo. Segundo ele, o metr  uma empresa e tem autonomia gerencial, no dependendo dele o aval para qualquer contrato. Procurado na quinta-feira 8, o advogado de Arruda no retornou.

O relacionamento de Arruda com a Siemens vinha de longa data (leia na pg. 50). Na poca das licitaes, o presidente da multinacional alem no Brasil era Adilson Primo, ex-colega de escola do governador. O governador Arruda  conhecido tambm pelo apelido de Mr. Siemens devido  sua proximidade com o presidente da companhia, afirmou o denunciante. Outro personagem de grande importncia ao conglomerado alemo no Distrito Federal foi o ex-diretor de operaes do metr da gesto Roriz, Antnio Manoel Soares (o Baiano), que passou a fazer a ponte para favorecer os interesses da empresa. Segundo informaes obtidas por meio do acordo de lenincia que a Siemens assinou com o Conselho Administrativo de Defesa Econmica (Cade)   em troca de imunidade civil e criminal para si e para seus executivos , as autoridades investigam em So Paulo e no Distrito Federal superfaturamentos ocorridos at 2008.


3. AGENDMETRO DE DILMA
Raio X das audincias mostra que dez ministros estiveram com a presidenta apenas duas vezes em trs anos e meio
Claudio Dantas Sequeira

MQUINA INCHADA - Dilma defende a manuteno de 39 ministrios, mas agenda mostra que h auxiliares que nem sequer foram recebidos at hoje por ela

A presidenta Dilma Rousseff tem resistido duramente  ideia de enxugar a mquina administrativa. Para ela, todos os 39 ministrios so importantes para atender  demanda social por polticas pblicas especficas. Mas o problema  que nem mesmo Dilma consegue despachar com tantos ministros, como revela um levantamento feito por ISTO na agenda oficial da Presidncia da Repblica. Descobriu-se que, em 42 meses de mandato, mais da metade da equipe ministerial esteve com Dilma em audincia oficial no Palcio do Planalto no mximo dez vezes, o que d uma mdia de quatro encontros por ano ou um por trimestre. Desse grupo, dez ministros s conseguiram ser recebidos pela presidenta duas vezes entre janeiro de 2011 e julho deste ano. 

 Boa parte dos despachos dirios, como se sabe, se d por telefone e e-mail. Mas a agenda oficial continua sendo um indicador importantssimo de gesto e sinaliza prestgio poltico. Basta saber que entre os dez ministros que mais frequentam o Palcio do Planalto, nove so do PT e s um do PMDB, o que pode explicar tambm a insatisfao dos aliados com o tratamento dispensado pelo governo.
 No agendmetro de Dilma, quem lidera  Guido Mantega, com 100 audincias. Mesmo criticado, o ministro da Fazenda se mantm forte. Isso tambm acontece com Ideli Salvatti, de Relaes Institucionais. Bombardeada pelo Congresso, a petista  to habitu do gabinete quanto Aloizio Mercadante, que se tornou o homem forte do governo, alm de Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Jos Eduardo Cardozo (Justia) e Miriam Belchior (Planejamento), todos imexveis.

No meio da tabela esto outros que, pelas funes estratgicas que desempenham, so menos ouvidos do que deveriam. Antonio Patriota, de Relaes Exteriores, costuma ser chamado apenas antes de viagens internacionais. De outro lado,  sintomtico que Lenidas Cristino (PSB), da Secretaria de Portos, tenha sido recebido por Dilma 14 vezes em 2011 e 2012, mas nenhuma este ano, justamente quando se aprovou a MP dos Portos  cuja proposta governista desagradou os socialistas. Na lista dos menos assduos, encontram-se Luiza Bairros (Igualdade Racial) e Eleonora Menicucci (Polticas para Mulheres), que s estiveram com Dilma duas vezes em todo o mandato, apesar da enftica defesa da presidenta pela manuteno das pastas. J Maria do Rosrio (Direitos Humanos) e Garibaldi Alves (Previdncia Social) no despacham no Planalto desde 2011.


4. E ELES AINDA DIZEM QUE NO SABIAM DE NADA
Documentos do tribunal de contas e do ministro pblico revelam que h cinco anos os tucanos paulistas foram alertados sobre as irregularidades no metr e trens de So Paulo
Alan Rodrigues, Pedro Marcondes de Moura e Srgio Pardellas

E AGORA? - Alckmin ( esq.) e Serra foram avisados sobre o propinoduto

Desde a ecloso do escndalo de pagamento de propina e superfaturamento nos contratos da rea de transporte sobre trilhos que atravessou os governos de Mrio Covas, Jos Serra e Geraldo Alckmin, os tucanos paulistas tm assumido o comportamento de outra ave, o avestruz. Reza a crena popular que, ao menor sinal de perigo, o avestruz enterra a cabea no cho para no enxergar a realidade. No foi outra a atitude do tucanato paulista nos ltimos dias. Como se estivessem alheios aos acontecimentos, lderes do PSDB paulista alegaram que nada sabiam, nada viram  e muito menos participaram. Documentos agora revelados por ISTO, porm, provam que desde 2008 tanto o Ministrio Pblico como o Tribunal de Contas vem alertando os seguidos governos do PSDB sobre as falcatruas no Metr e nos trens. Apesar dos alertas, o propinoduto foi construdo livremente nos ltimos 20 anos. Alm dos documentos agora divulgados, investigaes anteriores j resultaram no indiciamento pela Polcia Federal de 11 pessoas ligadas ao partido. No entanto, questionado sobre o cartel montado por multinacionais, como Siemens e Alstom, para vencer licitaes, o governador Geraldo Alckmin jurou desconhecer o assunto. Se confirmado o cartel, o Estado  vtima, esquivou-se. Na mesma toada, o seu antecessor, Jos Serra, declarou: No tomamos em nenhum momento conhecimento de qualquer cartel feito por fornecedores e muito menos se deu aval a qualquer coisa nesse sentido. As afirmaes agridem os fatos. Os documentos obtidos por ISTO comprovam que os tucanos de So Paulo, alm de verem dezenas de companheiros investigados e indiciados, receberam no mnimo trs alertas contundentes sobre a cartelizao e o esquema de pagamento de propina no Metr. Os avisos, que vo de agosto de 2008 a setembro de 2010, partiram do Ministrio Pblico estadual e do Tribunal de Contas do Estado de So Paulo (TCE-SP). Nos trs casos, os documentos foram encaminhados aos presidentes das estatais, nomeados pelo governador, e publicados no Dirio Oficial.

Nos trs avisos de irregularidades aparecem fortes indcios de formao de cartel e direcionamento de certames pelas companhias de transporte sobre trilhos para vencer e superfaturar licitaes do Metr paulista e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). O primeiro alerta sobre o esquema foi dado pelo Ministrio Pblico de So Paulo, em um procedimento de agosto de 2008, durante gesto de Jos Serra. Ao analisar um acordo firmado entre o Metr e a CMW Equipamentos S.A., o MP comunicou: A prolongao do contrato por 12 anos frustrou o objetivo da licitao, motivo pelo qual os aditamentos estariam viciados. Na ocasio, a CMW Equipamentos foi incorporada pela gigante francesa Alstom, uma das principais investigadas nesse escndalo. Ainda no documento do MP, de 26 pginas, aparecem irregularidades tambm em uma srie de contratos firmados pelo governo paulista com outras empresas desse segmento.

Em fevereiro de 2009, o Tribunal de Contas do Estado de So Paulo emitiu ao governo paulista o segundo aviso de desvios e direcionamentos em contratos no setor. As irregularidades foram identificadas, desta vez, na estatal CPTM. Ao julgar um recurso, o conselheiro do TCE Antonio Roque Citadini concluiu que a estatal adotou uma conduta indevida ao querer usar uma licitao para fornecimento de 30 trens com o consrcio Cofesbra, celebrada em 1995, durante gesto de Mrio Covas, para comprar mais de uma dcada depois outros 12 novos trens. A manobra foi identificada como uma forma de fugir da abertura de uma nova concorrncia. O julgamento de irregularidade recorrido fundamentou-se na inobservncia da Lei de Licitaes e, tambm, na infringncia aos princpios da economicidade e da eficincia, diz o relatrio. Citadini ainda questiona os valores pagos pelos trens, uma majorao de 17,35%. A crescente elevao do nmero de passageiros transportados deveria implicar, diz ele, estudos por parte da CPTM com vistas  realizao de um novo certame licitatrio. Tempo parece no lhe ter faltado, pois se passaram 11 anos da compra inicial, relatou Citadini.  ISTO, o conselheiro Citadini destacou que um sem-nmero de vezes o rgo relatou ao governo estadual irregularidades em contratos envolvendo o Metr paulista e a CPTM. Nossos auditores, que seguem normas reconhecidas por autoridades internacionais, tm tido conflitos de todo tamanho e natureza para que eles reconheam os problemas, disse Citadini.

CONLUIO - Polticos tucanos incentivaram empresas a formar cartel para vencer licitao da linha 5 do Metr paulista (foto) 

O terceiro recado ao governo paulista sobre irregularidades nas licitaes do Metr e do trem paulista ocorreu em setembro de 2010. Ao analisar quatro contratos firmados pelo Metr, o Tribunal de Contas do Estado de So Paulo estranhou que os certames envolviam uma enorme quantidade de servios especficos. Dessa forma, apenas um reduzido nmero de empresas tinha condies de atender aos editais de licitao e se credenciar para disputar a concorrncia. Os contratos em questo se referiam ao fornecimento de trens, manuteno, alm de elaborao de projeto executivo e fornecimento de equipamentos para o Metr paulista. O Tribunal insistia que, quanto mais ampla fosse a concorrncia, menor tenderia a ser o preo. Em diversos trechos, o relatrio aponta outras exigncias que acabavam estreitando ainda mais o nmero de participantes. Havia uma clusula, por exemplo, que proibia companhias estrangeiras que no tivessem realizado o mesmo servio em territrio brasileiro de participar da disputa. Na prtica, foram excludas gigantes do setor do transporte sobre trilhos que no integravam o cartel e poderiam oferecer um melhor preo aos cofres paulistas. A anlise das presentes contrataes revelou um contexto no qual houve apenas uma proposta do licitante nico de cada bloco. Em outras palavras, no houve propriamente uma disputa licitatria, mas uma atividade de consorciamento, analisou o TCE sobre um dos acordos. A recomendao foi ignorada tanto por Serra como por Alckmin, que assumiu o governo trs meses depois.

Um e-mail enviado por um executivo da Siemens para os seus superiores em 2008, revelado na ltima semana pelo jornal Folha de S.Paulo, refora que os ex-governadores tucanos Jos Serra, Geraldo Alckmin e Mrio Covas no s sabiam como incentivaram essa prtica criminosa. O funcionrio da empresa alem revela que o ento chefe do executivo paulista, Jos Serra (PSDB), e seu secretrio de Transportes Metropolitanos, Jos Luiz Portella, sugeriram que a Siemens fizesse um acordo com a espanhola CAF, sua concorrente, para vencer uma licitao de fornecimento de 40 trens  CPTM. Serra teria ameaado cancelar o certame se a Siemens tentasse desclassificar a concorrente na justia. Como sada, conforme relata o jornal, sugeriu que as empresas dividissem parte do contrato por meio de subcontrataes. O executivo da Siemens no revela na mensagem, mas essa soluo heterodoxa de Serra j havia sido adotada numa ocasio anterior. No final da dcada de 1990, o governo Mrio Covas (PSDB) incentivara as companhias da rea de transporte sobre trilhos a formarem um consrcio nico para vencer licitao de compra da linha 5 do metr. A prtica, como se v, recorrente entre os tucanos paulistas, continuou a ser reproduzida nos anos subsequentes  licitao. Reapareceu, sem reparos, com a chegada ao poder do governador Geraldo Alckmin. Hoje, sabe-se que esse esquema gerou somente em seis projetos da CPTM e do Metr um prejuzo de pelo menos R$ 425,1 milhes aos cofres paulistas. As somas foram obtidas, como ISTO antecipou, com o superfaturamento de 30% nesses contratos.

PROXIMIDADE: Arthur Teixeira, Lavorente e Jurandir Fernandes (da esq. para a dir.), atual  secretrio de Transportes do governo Alckmin, em visita  fbrica da MGE em Hortolndia

O que tambm torna pouco crvel que os governadores tucanos Jos Serra e Geraldo Alckmin, at o ms passado, desconhecessem as denncias  o fato de o Ministrio Pblico ter aberto 15 inquritos para investigar a tramoia, aps a repercusso do escndalo envolvendo a Siemens e a Alstom na Europa em 2008. Atualmente, essas provas colhidas no Exterior do suporte para o indiciamento de 11 pessoas, entre elas servidores pblicos e polticos tucanos. O vereador Andrea Matarazzo, serrista fiel,  um dos indiciados. Na lista da Polcia Federal, constam ainda nomes bem prximos aos tucanos como o de Jorge Fagali Neto. Ele foi diretor dos Correios e de projetos para o Ensino Superior do Ministrio da Educao durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Ao reabrir, na semana passada, 15 investigaes paradas por faltas de provas e montar uma fora-tarefa para trabalhar em 45 inquritos, o Ministrio Pblico colocou lupa sobre outras autoridades ligadas ao PSDB. Trata-se de servidores que ascenderam na gesto Serra, mas mantiveram fora e poder durante o governo Alckmin. So eles: Jos Luiz Lavorente, diretor de Operao e Manuteno da CPTM, Luiz Carlos David Frayze, ex-secretrio de transportes e ex-diretor do Metr, Dcio Tambelli, coordenador de Concesses e Permisses do Metr de So Paulo e Arthur Teixeira, lobista do esquema Siemens, dono de uma das offshores uruguaias, utilizadas pela multinacional para pagar propina a agentes pblicos. Como revelado por ISTO na edio de 20 de julho, as evidncias so to fortes quanto  proximidade destes personagens com a gesto tucana. Na ltima semana, o atual secretrio de Transportes, Jurandir Fernandes, reconheceu ter recebido Teixeira em audincia junto com outros empresrios. A foto da pgina 45 desta reportagem mostra Arthur Teixeira visitando as instalaes da MGE Transportes, uma das empresas integrantes do cartel, em Hortolndia, interior de So Paulo, ao lado de Jurandir e Lavorente. A visita ocorreu durante a execuo da reforma dos trens da CPTM. 

 Em meio  enxurrada de evidncias, na sexta-feira 9, o governador Alckmin anunciou a criao de uma comisso para investigar as denncias de formao de cartel e superfaturamento em contratos firmados com o metr paulista e a CPTM. Para fazer parte dela, ele pretende indicar integrantes de entidades independentes, como a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). Segundo o governo, ela ter total independncia e contar com a ajuda dos rgos de fiscalizao do Estado. A medida foi anunciada aps a Justia Federal negar, na segunda-feira 5, um pedido do governo de So Paulo para ter acesso aos documentos da investigao do Cade. Tucanos paulistas acusam o rgo, uma autarquia vinculada ao Ministrio da Justia, de vazar informao para a imprensa e agir sob os interesses do PT. Deputados estaduais, porm, questionam a nova comisso. Tudo que traga transparncia  bem-vindo. Mas h um local institucionalmente correto para se apurar estas irregularidades.  uma CPI, diz o lder do PT na Assembleia Legislativa, Luiz Claudio Marcolino. Se ele quer apurar os fatos, como diz,  s pedir para sua base assinar o pedido de CPI e no obstruir como o PSDB faz por dcadas quando o assunto  metr, complementa.

Alckmin resolveu agir porque v o escndalo se aproximar cada vez mais do Palcio dos Bandeirantes. As razes para este temor podem estar em cinqenta caixas de papelo guardadas nas dependncias do CADE, na Asa Norte, em Braslia. O material foi recolhido aps uma operao de apreenso e busca realizada em 4 de julho na sede de doze empresas associadas ao cartel em So Paulo, Braslia, Campinas e So Bernardo do Campo. S numa destas empresas, os investigadores permaneceram por 18 horas. A Polcia Federal, batizou a operao de Linha Cruzada. No se sabe, at agora, o que h dentro das caixas de documentos apreendidos. A informao  que elas permanecem fechadas e lacradas, aguardando ainda a anlise do CADE, que poder transformar uma investigao de cartel, num dos mais escandalosos casos de corrupo que o Pas j assistiu.


5. EM ITAJUB, A NOVA VIDA DO SUPEREXECUTIVO
O ex-presidente da Siemens Adilson Primo trabalhou na multinacional alem por 34 anos at ser afastado em 2011, acusado por um desvio de 6,5 milhes de euros. Agora ele  secretrio municipal de Itajub, onde ainda tem fama de poderoso 
Rodrigo Cardoso, enviado especial a Itajub (MG)

O ARQUIVO VIVO - O ex-executivo da Siemens Adilson Primo  atualmente o manda-chuva da Prefeitura da cidade mineira de Itajub

Os primeiros raios de sol da manh atravessam as rvores que circundam a praa Theodomiro Santiago e ajudam a aquecer um grupo de aposentados sentados sobre cadeiras de plstico em frente a um caf. A conversa da turma fica mais calorosa quando entra em pauta a poltica da cidade onde eles moram, Itajub, situada no sul de Minas Gerais.  A prefeitura quer desapropriar um terreno enorme sei l pra que diabo!, solta um deles. De pronto, o colega ao lado comenta: Certeza que tem dedo do supersecretrio. Apoiado em uma bengala, o outro senhor retruca, antes de saborear um caf: Esse  danado! Foi por causa dele que a secretria da Indstria e Comrcio pediu pra sair. Os trs moradores da cidadezinha mineira situada nas encostas da Serra da Mantiqueira referiam-se ao secretrio municipal de Administrao Geral e Gesto, Adilson Antonio Primo. Ele  um homem de currculo incomum. Executivo aclamado no mundo dos negcios, Primo presidiu a Siemens do Brasil por dez anos e pilotou resultados to fantsticos para a companhia que chegou a ser cotado para liderar o QG mundial do conglomerado alemo. At que, em 2011, foi demitido sob suspeita de ter desviado cerca de 6,5 milhes de euros. Aos 60 anos, Primo deu uma reviravolta em sua vida e, numa trajetria surpreendente, desabou sobre a poltica local da cidade onde ele havia se formado engenheiro eletricista em 1975 e hoje  ocupada por pouco mais de 91 mil habitantes. Embora nefito na poltica, Primo tornou-se, na boca do povo, supersecretrio da Prefeitura de Itajub. O processo de criao da Secretaria de Administrao d a dimenso exata do prestgio de Primo na cidade. At janeiro de 2011, quando o prefeito Rodrigo Riera (PMDB) tomou posse, o rgo nem sequer existia. Dois meses depois, a secretaria foi erguida apenas para acomod-lo, com salrio de R$ 6.882,34. Na poca de sua sada da Siemens, Primo ganhava 26 vezes mais: seu salrio era de R$ 181,9 mil.

Mas Primo no  um secretrio qualquer. Apesar de ter dito em entrevista exclusiva  ISTO que tem ojeriza  poltica, o ex-executivo da Siemens d as cartas na cidade. No  toa, ele tambm  conhecido no meio poltico local como CEO e primeiro ministro da prefeitura. Quem manda na prefeitura  o Adilson Primo. Ele mesmo j disse que o prefeito tem de prefeitar, ou seja, viajar, fazer poltica, contatos. Enquanto Riera faz isso, o Primo coordena todas as secretarias de uma forma totalmente centralizadora, disse  ISTO um dos maiores empresrios da regio. O fato  confirmado por Leandra Machado Santos. Hoje proprietria de uma rede de drogarias, Leandra  a ex-secretria que pediu demisso do cargo aps bater de frente com Primo. Adilson ficaria com a misso de choque de gesto, alm de promover a integrao entre as secretarias. Mas no foi assim. Ele no conseguia ser integrador e passou a assumir projetos de outras secretarias, como a que estava sob a minha responsabilidade. De forma desrespeitosa, mandava e desmandava nos programas dos quais eu era responsvel. Pedi afastamento do cargo e do governo, contou Leandra, por e-mail, de Londres, onde se encontrava em viagem. 

DUPLA DO BARULHO - O ex-governador do DF Jos Roberto Arruda e Adilson Primo foram contemporneos na Universidade Federal de Itajub (abaixo), em meados dos anos 70

Embora no tenha nascido em Itajub, Primo  natural da cidade mineira de So Loureno  comeou a pavimentar sua carreira de executivo da Siemens na cidade onde hoje atua como secretrio com superpoderes. Nos anos 70, a Siemens costumava dar uma bolsa para o melhor aluno de engenharia eltrica da Universidade Federal de Itajub (Unifei), afamada pela excelncia na formao de engenheiros. Primo, que era considerado um aluno brilhante da instituio centenria, recebeu a honraria e passou a estagiar na empresa. Na multinacional alem passou 34 anos at ser afastado em 2011 por grave violao de diretrizes. Um de seus ex-professores universitrios confirma o que ex-colegas de classe disseram sobre a inteligncia acima da mdia do ex-presidente da Siemens. Ele  um dos ex-alunos dos quais eu mais me orgulhava no passado. Hoje, com essas histrias todas, no tenho o mesmo sentimento por ele, lamentou. Arquivo vivo dos escndalos da Siemens, Primo, se quisesse,  poderia contribuir e muito para a elucidao do funcionamento do cartel, da qual a Siemens fez parte, que superfaturou obras no Metr e nos trens de So Paulo durante os governos de Mario Covas, Jos Serra e Geraldo Alckmin. Mas ele prefere silenciar sobre o assunto. Sobre a Siemens eu no falo. Tenho um processo que corre em segredo de Justia e no posso dar absolutamente nenhuma declarao, disse ele  ISTO, na sada do melhor restaurante de Itajub, depois de ter saboreado um abadejo acompanhado de suco de laranja durante o almoo na quarta-feira 7. Enquanto Primo presidia a Siemens, a empresa tinha planos de instalar duas fbricas em Itajub, num invetimento de R$ 300 milhes que geraria 700 empregos diretos. Depois que ele assumiu a secretaria municipal, os alemes desistiram do empreendimento.

Dono de passado recente conturbado, depois de permanecer por trs dcadas numa multinacional, na qual ocupou vrios cargos de confiana, Primo contrariou a lgica ao se expor assumindo um cargo pblico. Para um poltico local, Primo, ao contrrio do que alardeia, acalenta o sonho de assumir a prefeitura em 2014. Para atingir a pretenso poltica, contaria com o aval do atual prefeito. Enquanto no confirma sua postulao, Primo leva uma vida tranquila na cidade. Construiu um prdio de trs andares como investimento e possui um lote de terreno em um condomnio fechado, onde ir construir uma casa. Mora em um apartamento de trs quartos em um prdio com porteiro 24 horas por dia muito bem localizado no centro da cidade, prximo da praa central e da igreja matriz. No mesmo endereo, o ex-governador do Distrito Federal, itajubense e engenheiro eletricista Jos Roberto Arruda, possui apartamentos alugados. Primo e Arruda foram contemporneos na Unifei, em meados dos anos 70. Frequentavam juntos a praa central, ponto de encontro da juventude na poca. Mas Arruda no era da minha panela, garantiu o secretrio, que gostava de tocar violo e presentear as namoradas com LPs de Roberto Carlos.

No sei de nada. O meu tema com a Siemens corre em segredo de justia
Adilson Primo, ex-executivo da Siemens, entrevistado por ISTO  na quarta-feira 7, enquanto saa de um restaurante de Itajub

O ARRUDA NO ERA DA MINHA PANELA

ISTO  Por que o sr. decidiu retornar a Itajub?
 Adilson Primo  Vim para dar uma contribuio temporria para a cidade. Ela mudou muito, me formei aqui.

ISTO  O sr. quer seguir carreira poltica?
 Primo  No, no! No h nenhuma inteno minha de enveredar para a poltica. De jeito nenhum! Isso aqui est sendo um perodo. A ideia  tentar ajudar a cidade com a minha experincia. Alis, tenho ojeriza  poltica. O meu negcio  tcnico. Agora me aposentei e estou em uma fase de emprestar um pouco da minha experincia. S isso.

ISTO  O sr. e Jos Roberto Arruda se formaram como engenheiros eletricistas praticamente na mesma poca, nos anos 70, em Itajub. Eram amigos?
 Primo  A turma da escola se encontrava todo dia. Evidentemente que tinham as panelas. Mas o Arruda no era da minha panela, do meu crculo. No frequentvamos um a famlia do outro, no.

ISTO  O sr. tinha conhecimento do envolvimento da Siemens no cartel que superfaturou obras do Metr de So Paulo? 
 Primo  Tenho um processo com a Siemens que corre em segredo de Justia e no posso dar absolutamente nenhuma declarao.

ISTO  O governador de So Paulo tinha conhecimento desse superfaturamento?
 Primo  No sei de nada. Absolutamente, no posso tocar sobre nenhum tema, porque o meu tema com a Siemens corre em segredo de Justia.

ISTO  O sr. teria como contribuir para a elucidao desse caso?
 Primo  No posso, absolutamente, contribuir com essa entrevista com nada que diga isso. Hoje, o processo com a Siemens corre em segredo de justia. Ponto!

ISTO  Muitos cidados de Itajub dizem, em tom de reclamao, que o sr. fica na cidade de segunda a sexta, mas passa os fins de semana em So Paulo com a famlia.  isso? 
 Primo  Olha, eu...

ISTO  O sr. mora em Itajub?
 Primo  s vezes, venho para c, s vezes, vou para l...Varia. Frequento Itajub h 60 anos.

